segunda-feira, 30 de junho de 2014

Crônicas de Maria Adelina



MORTE

Sentido absoluto, coerente, re-definindo renascimento. Caracterizada pela foice, segue pelos milênios infinitos, encobertos pelos mistérios indecifráveis, intocáveis, encerrando ciclos.
Corte afiado, determinado pela sentença irrevogável, imposta desde a mais remota era, para o desfecho, o desligar...

Muitos negam falar do assunto. Outros ignoram sua presença.
Evita observar sua constante, irrevogável permanência entre nós no órgão debilitado, na bactéria afoita, no sinistro súbito...

Alguns outros descuidados não observam com que agilidade, ou paciente paciência, cumpre sua missão, dia, noite, madrugada.

Percebo claramente o corte afiado, que faz a ceifa necessária.
Com a mesma intensidade da na árvore...
Não estranho sua presença.

Nem me causa nenhuma estranheza, mal estar, ou arrepio, porque só você re-define precisamente onde desemboca a vida, aos avisados, e desavisados, ao coerente e incoerente.

Aos crédulos e céticos. Aos atentos e distraídos, aos justos  e injustos, aos feios e bonitos, aos abastados ou marginalizados...
Ninguém foge das suas mãos hábeis.

Assim, segue, prossegue encaminhando  todos, ao  comboio ofegante, apressado, para fazer a travessia  desconhecida, e tão necessária...

Maria Adelina V. Cardoso e Gomes




terça-feira, 24 de junho de 2014

Crônicas de Enio Ferreira

 









O CASO DA EMA

O Palmeiras Clube era apenas um salão de dança na Avenida 19 e não tinha piscina, o Ituiutaba Clube tinha piscina, mas, só para os sócios, para os humildes sem chance. Então, a opção para a nossa jovem turma era nadar no poção do São Lourenço. 

Só que a gente não achava isso ruim e era até mais divertido: - nadar em água corrente é melhor e mais emocionante que a piscina. Hoje está fora de moda, proliferaram piscinas, mas antes desses eventos os jovens, para recreação na água, só tinham as piscinas naturais que se formavam nas curvas dos rios.      
  
Do centro da cidade até ao “poção” era uma esticada de uns cinco quilômetros de alegria e poeira estrada afora e, disputar corrida até lá era o máximo, quem chegava por último não entrava na água, ficava de fora vigiando as roupas. O mais veloz era o João Feio, que corria mais que o papa-léguas.   
  
Numa dessas idas uma ema atravessou a estrada e o João Feio que tinha supremacia nas pernas foi desafiado a pegá-la. Ele saltou a cerca da fazenda e disparou na pastaria atrás da inofensiva ave: Guinada para um lado, guinada para o outro, e a assustada ema ia se safando da perseguição implacável. E a turma incentivando: Pega! Pega! 
  
Já que nenhum de nós quis esperar pelo João Feio que sumiu no capinzal correndo atrás da ema, seguimos todos diretos para o poção do São Lourenço. Passamos boas horas de aventura e diversão na água e ao cair da tarde, cansados, com fome, pegamos a estrada de volta.      

Mas de repente o que nos aparece atravessando a estrada? A ema correndo do João Feio! Manca, depenada, esbaforida e, atrás dela, o João Feio, ofegante e cambaleando, com as pernas duras de câimbra. Esse dia ele voltou carregado pra casa. #
               


terça-feira, 17 de junho de 2014

Crônicas do Saavedra




QUANDO A ÉPOCA É DE CRISE...                                                                   
Saavedra Fontes



As ruas perdem o brilho da ensolarada alegria do verão e abastece a cidade de um ar de formalidade mal estabelecida. Os cumprimentos são pesados, medidos, o sorriso morre nos lábios fechados pela síndrome da preocupação. 

Falta o rumor dos passos apressados, o ruído de saias farfalhando, o barulho dos motores convencionais e das buzinas estridentes. Até o alarma contra roubo é falso no veículo estacionado na esquina, como é falso o bom humor do cambista, maluco pra se livrar do “pavão encalhado” ou de um “burro pela metade.

Os bares diurnos perdem o eco das vozes, habitualmente multiplicadas diante de uma garrafa de cerveja ou uma xícara de café. Um e outro frequentador assíduo se manifesta, praguejando contra as cadeiras vazias e o palco silencioso das discussões mundanas. O olhar é frio das pessoas que passam atarefadas, preocupadas com os problemas diários. É pálido o rosto do homem compromissado com dívidas cujos sonhos terminam no fim do mês... E como é louca a atitude do mendigo bêbedo, que se põe a dançar no meio da avenida, desafiando os veículos que passam e a mórbida seleção do destino que o fez o último dos homens.

Estranha é a manifestação de agrado no rosto familiar que acaba de nos acenar, taciturno e sombrio como as badaladas do sino da matriz em dobre fúnebre. Aqui, a sensação de fragilidade do homem maduro diante das raras opções de trabalho, solidariedade e compreensão. Ali, a inutilidade do gesto de tocar com os dedos a vitrine colorida e os sonhos vazios da possibilidade de consumo. Além, a extensão do remorso no pobre que perdeu a cabeça por tão pouco de forma inexplicável e brusca. A miséria e a fome. Os desejos impossíveis da criança... 

Duro é concluir que no cômputo geral existe um “quase”, essa forma de ironia que serve para separar as coisas. Quase um convite à revolta, quase um grito de dor, quase o desespero e a morte não fosse a incrível capacidade de alguns de ainda crer na vida e manter a esperança no amanhã. Mas a esperança e o otimismo sobrevivem entre os privilegiados das classes mais elevadas. 

Na hipocrisia dos que compram o seu voto por algumas promessas não cumpridas e nos olham de cima amparados no poder. Porque a  crise só atinge os pobres e miseráveis, que vivem e morrem esquecidos.




sexta-feira, 13 de junho de 2014

Histórias do nosso futebol


 
Por onde anda o Totó?  
Enio Ferreira – ALAMI

Por onde andam todos? Aquela turma de garotos amarelados de poeira, de pés no chão, que corriam atrás de uma bola, esquecidos de tudo que não fosse bola de futebol?  Que faziam de qualquer espaço de terreno desocupado um campinho para jogar?

Para onde foram todos aqueles garotos, aqueles campinhos, aquela a poeira, aquela bola de borracha que furava quando “um perna-de-pau” lhe aplicava um bicudo?
  
Por certo que ainda estão por aí! Os garotos, a bola, os campinhos, embora, é claro, tudo modernizado! A bola é de couro, os garotos são limpos e uniformizados, usando chuteiras e, a poeira foi trocada pela grama viçosa e verdinha.         
   
É... A vida anda. Caminha a passos largos, e aqueles garotos do meu tempo, todos, irrevogavelmente, se diluíram na vida adulta. Depois de “homens feitos” cada um tem que enfrentar a dura realidade, nua e crua... Suar a camisa para conseguir “matar” o seu leão de cada dia.  

Que aquela época foi boa, isso sim é que foi! Principalmente porque éramos todos jovens e por isso as garotas proliferavam na beira do campo. Talvez por causa dessas garotas mesmo que o time perdia algum jogo que parecia fácil, pois, querendo se exibir pra elas esquecia o adversário.       

Mas o jogador que arrancava suspiros das moças era o Totó. E foi por sua causa que aconteceu a confusão que interrompeu a vida do nosso time: A mãe dele, que estava entre a torcida na beira do campo, saiu às tapas e puxões de cabelos com uma mulher que se atreveu a comentar que o belo Totó tinha bunda de mulher, gerando uma briga das grandes entre os familiares.        

Os vizinhos reclamaram da briga, o dono mandou cercar o terreno com arame farpado e acabou com o campinho e, eu acho ter sido esse o motivo que deu fim ao nosso saudoso “Três Coqueiros Futebol Clube”    



quarta-feira, 4 de junho de 2014


Campinho do Funil, em meu tempo de criança

Esse fato se deu lá pelos idos de 1958, quando cheguei de mudança nessa cidade. Fui morar na Avenida 13 com ruas 28 e 30, enfrente a casa do saudoso amigo Janjão. Eu tinha apenas 11 anos de idade. Como todo garoto nessa idade, eu também adorava futebol e toda a tarde, após me familiarizar com a garotada da vizinhança, ia jogar bola num campinho que existia, logo abaixo de minha casa, na 13 com 30 e 32, o Campinho do Funil, pois seu formato era de um funil, largo em cima e ia se afunilando em baixo; onde mais tarde foi construída a residência do meu amigo Ubiratan Martins. Ali toda tarde a molecada se reunia para correr atrás de uma bola de borracha, e às vezes até feita de meia de futebol. Era uma alegria, a garotada não ficava sem ir ao Campinho do Funil bater uma bolinha. Eu me recordo o nome e apelido de alguns garotos que brincavam naquele campinho. Bodim, Vasco (hoje médico), Carlo Novais (engenheiro), Marco Aurélio (advogado), Cascão (piloto da TAM), Valdo (agrônomo), Nivalcir (psicólogo), Mudinho, Oripão (Botânico), Cabaça (teatrólogo), Bizerro (arquiteto), Gaguim e eu, Hairton (radialista e jornalista), dentre outros.
Mudei pra cá no mês de junho, período de férias escolares, porém com o início das aulas, meus pais me matricularam em uma escola que funcionava no Centro Espírita Eurípedes de Barsanufo, que existe até hoje, situado na Avenida 13 com 16 e 18, onde aprendi a ler e escrever. Fui estudar no período matutino, porém, na parte da tarde, minha mãe arrumou serviço pra mim na alfaiataria do Bolivar que era nosso primo. A alfaiataria dele funcionava na esquina da Rua 22 com Avenida 11. Eu estudava cedo e trabalhava à tarde, entregando as encomendas e buscando as calças e camisas da freguesia. Certo dia, quando o meu primo Bolivar me mandou buscar umas calças que estavam sendo feitas pela dona Maria Mélica moradora da Rua 32 com 3 e 3-A, no Bairro Progresso, eu ao invés de ir buscar o que me mandara o primo, fui direto para o Campinho do Funil, onde eu era goleiro de um dos times que naquele dia disputava quem era o melhor da localidade. Era mês de agosto, além de ventar muito tinha muita poeira. Todos os times queriam ser o melhor da rua, ninguém queria perder. No jogo contra o meu time, Vaselina Esporte Clube, quando o adversário (Arranca Toco F. Clube) chutava a bola no meu gol, eu pulava como um gato e defendia a bola, me esparramando todo na poeira. Nesse ínterim, o Bolivar que tinha que entregar as calças para o freguês que havia encomendado, saiu atrás de mim para ver o que tinha sucedido comigo que não chegava com as danadas das calças. Dei tanto azar, o Bolívar ao se dirigir a casa da dona Maria Mélica, onde eu devia estar, passou antes em sua residência que ficava na esquina, da 13 com a 30,  para deixar uma encomenda. De sua casa dava pra ver todo o campinho; a primeira pessoa que ele viu foi eu dando um daqueles mergulhos na bola, rolando pelo chão. Ele saiu calado, buscou as costuras e entregou para o freguês que estava esperando. Em seguida foi até a minha casa e narrou para minha mãe Laura, o que estava acontecendo. Muito aborrecida com o fato, ela mais que depressa se dirigiu ao campinho, onde me encontrou todo sujo de terra. Fiquei pálido quando a vi chegar. Ela me perguntou se eu não tinha que buscar algo para o primo Bolivar. Eu muito desapontado disse já ia buscar, mas ela me impediu dizendo, que ele já havia feito isso, e me mandou depressa ir pra casa, me chamando de moleque irresponsável. Cheguei rápido. Em seguida ela chegou e me passou um senhor sermão, e me obrigou a pedir desculpas ao primo, em seguida disse-me que ficaria de castigo o resto do mês, sem falar na coça que levei. Mas o Campinho do Funil ficou gravado como uma indelével recordação do tempo de criança. É bom lembrar que nesse mesmo dia que fui surpreendido pela minha mãe querida, eu havia destroncado o dedo minguinho com uma bolada, que em razão disso, até hoje esta torto...
Hairton Dias
 imprensahd@hotmail.com 


 
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