segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Crônicas de Edgar Franco













     Por que decidi jamais “trabalhar”.

Nessa vida tudo que nunca fiz foi trabalhar. A palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura medieval muito cruel, e é verdade, no mundo contemporâneo o termo “trabalho” passou a ser considerado algo desagradável que você tem que realizar para ganhar o seu sustento. Toda a minha vida tem sido uma história de aversão ao trabalho, nunca trabalhei e espero jamais trabalhar!
Fiz dos quadrinhos uma das minhas formas expressivas prediletas pelo amor genuíno que tenho por sua linguagem, amor que começou na tenra infância quando meu pai comprava gibis para mim todos os finais de semana, a princípio na saudosa “Livraria Barros”, nosso local de visitas obrigatórias todos os finais de semana desde antes de eu saber falar, e depois na notória “Itacolomy”, que até hoje resiste bravamente em nossa Ituiutaba apesar da decadência inevitável dos impressos em um mundo cada vez mais digitalizado. Foi com os quadrinhos que aprendi a ler. Logo veio o desejo de criar quadrinhos e ainda com 12 anos de idade publiquei minha primeira HQ em um fanzine e continuei a produção incessante que hoje ultrapassa as 3 mil páginas publicadas, somando-se fanzines, revistas e álbuns em quadrinhos. Também decidi levar os quadrinhos para o meu universo de pesquisa e fiz mestrado em multimeios na Unicamp, onde realizei um estudo pioneiro no mundo sobre as HQs na Internet categorizando o que batizei de HQtrônicas; depois no doutorado em artes na USP criei um universo ficcional transmídia que entre outras criações gerou álbuns em quadrinhos, revistas e fanzines. Hoje, além de artista transmídia, sou professor no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da UFG – Universidade Federal de Goiás, onde oriento mestrados e doutorados sobre o tema, e também criei a disciplina de graduação “Histórias em Quadrinhos de Autor”, que ministro na Faculdade de Artes Visuais da UFG.
Não considero nada do que faço como “trabalho”, referindo-me a essa palavra como algo que deve ser feito à revelia do que gostamos para garantir nosso sustento. Olhando minha trajetória percebo que nunca trabalhei na vida, pois sempre segui o meu coração. Minha história é pautada pela busca incessante de realizar aquilo que me dá prazer e com o que posso contribuir de alguma forma para a minha integralização como ser e para a transformação do mundo em lugar melhor. Nunca objetivei “ganhar dinheiro”, mas ele nunca me faltou, até porque sou um homem simples, desinteressado em posses materiais, que infelizmente são o objetivo maior de uma sociedade guiada pelo hiperconsumo.
Faço o que amo e não preciso “trabalhar”, e mesmo quando passei por dificuldades materiais nunca deixei a pureza de meus objetivos ligados às atividades que amo. Infelizmente, como professor, vejo constantemente os jovens abdicando de seus talentos - daquilo que amam -, para seguirem caminhos torpes guiados apenas por resultados financeiros, enterrando seus sonhos e vendendo-os por lixos como “carros do ano”, “celulares de última geração”, roupas de grife e toda essas bugigangas que têm contribuído para a destruição da biosfera. É lamentável perceber os valores cada vez mais guiados pelo ter, em um mundo cada vez mais necessitado do ser.

Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Acadêmico da ALAMI, possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia e histórias em quadrinhos. ciberpaje@gmail.com




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