quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Crônicas de Eliane Gouveia









- Maratona de crônicas -
     - sete textos -

Eliane Gouveia



01
O VESTIDO DE FESTA

Mal a Avó pisou no Apê e a Menininha já a estava puxando pela mão.
_ Vó, vem cá ver uma coisa!
A Avó tentou enrolar um pouco:
_ Peraí, dexô tirar meu sapato.
_ Vem, Vó, vem ver uma coisa!
_ Péra, vou deixar as malas no quarto.
_ Vem, vem, por favor, Vó!
Até que a Avó cedeu e foi.
A “coisa” era uma sacola da “Minêi” com roupinhas de boneca. 
Continha um vestidinho, um “bêibidol” e uma fraldinha descartável.
_ Que gracinha, você fez a mala da sua filhinha? 
_ Fiz!
_ Num sabia que ela também ia viajar conosco!
_ Vai, Vó, mas ainda não tem roupa para a festa.
Então a Avó ouviu a temida pergunta:
_ Vó, “PÓDE” fazer um vestido para a Malu?
A frase, formulada assim, com a silepse do pronome, passa inexoravelmente de interrogativa para imperativa.
“Vó, PÓDE fazer”, significa exatamente: “Vó, você VAI fazer!”.
E num adianta espernear com argumentos do tipo: na sua casa num tem tecido, num tem linha, num tem tesoura, num tem agulha.
Nada convence a Menininha!
Se vira!
Inventa um pedaço de “não-tecido” que sobrou da fantasia do Dia da Primavera na escola, descobre um kit de primeiros socorros para roupas que o Pai trouxe do hotel, pega uns lacinhos de fita antigos (de colar com sabonete na careca da Neném).
Inventa, que não tem saída!
E o vestidinho se faz!
_ Mas Vó, “PÓDE” fazer uma capa também?
Ai, ai, ai meu pai! Capa de que jeito, com que pano?
Asas à imaginação e desmancha-se o saquinho de seda transparente, porta sachê de sabonetinho. 
E ...txârânnnn!!!
Ficou linda a Maluzinha vestida de azul turquesa, capinha esvoaçante, lacinhos rosa e lilás.
Modelito confeccionado, “ateliê” organizado, roupinha na mala, seguiu-se a viagem!
“Vamoscomdeusenossasenhoracapetinhatrástocandoviola!”
Chegando à festa, Maluzinha vestida de “Elza”, abafa na sua primeira aparição no “ráiguisoçáite”.
Lá pelas tantas, a Menininha, exausta, dormiu, e a boneca ficou esquecida sobre uma mesa.
A festa “bombou” até as quatro da matina, quando os últimos convidados voltaram para o hotel.
De manhã, a Avó recebe o telefonema angustiado:
_ Mãe, você trouxe a Maluzinha da festa ontem?
_ Não, por que?
_ Porque eu acho que ela sumiu!
E começou o rebu. 
Uótizápis comendo solto no grupo da Família.
“Alguém viu a boneca?”
“Uma bonequinha de vestido azul?”
“Táva em cima de uma mesa!”
“Vi, não.”
“Nem eu!”
“Nem eu também!”
“Quem saiu por último?”
“Acho que foi a Tianem.”
“Calma, vamos voltar ao clube, quem sabe o pessoal da limpeza achou e guardou.”
Voltou-se ao clube e nécas de pitibiribas!
Drama instalado, tensão no ar até que a Menininha pergunta: 
_ Pai, cadê a Maluzinha?
O Pai engole seco e responde evasivo:
_ Deve estar na sacola dentro do porta-malas.
E o carro segue rumo à casa dos aniversariantes para as despedidas e agradecimentos pela festa maravilhosa.
Então.... Aleluia!!! 
Tianem, última a sair da festança, que ainda num havia ligado o zápi aquela manhã, achou a boneca abandonada e guardou junto com os presentes.
Alívio geral, alegria, despedidas, beijocas, lágrimas de emoção.
Todos entram no carro para a viagem de volta.
A avó ajeita o cinto de segurança da Menininha, coloca a boneca em seus braços e diz:
_ Querida, “PÓDE” grudar os olhos na Maluzinha até chegarmos em casa?

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Eliane Gouveia


 02

ERRO DE PORTUGUÊS

A dona do salão comtemplava orgulhosa o letreiro pintado na fachada:
“FULANA´S Cabeleireiros”.
O pintor já ia descendo da escada com a lata de tinta e o pincel, quando o homem passou, olhou, leu e falou:
_ O nome do seu salão está escrito errado!
A moça olhou desconfiada para o transeunte e indagou:
_ O que foi que o senhor disse?
_ Eu disse que há um erro de Português aí!
_ Como assim, num tem erro nenhum aqui!
Implicante e metido a “professor do mundo”, o homem reafirmou:
_ Tem sim, tem um erro aí!
O pintor, no alto da escada, prevendo a demora do bate-boca, sentou-se no último degrau, pendurou o cabo do pincel entre o indicador e o polegar, muniu-se de paciência e ficou a brincar de pêndulo.
A dona do salão, irritadíssima, retrucou:
_ Se o senhor acha que tem um erro aqui, então prova!
_ Eu num tenho que provar nada! Só sei que tem um erro, e pronto e acabou!
Já meio insegura com a segurança do outro, a moça ponderou:
_ Como vou saber se o que o senhor tá falando é verdade?
Ele teve uma ideiabrilhante:
_ Pegue um catálogo telefônico e olhe como estão escritos os nomes dos outros salões.
A moça foi até a padaria da esquina e pediu um catálogo emprestado.
Entregou-o ao homem que abriu direto na letra “C” e apontou triunfante:
_ Aqui, ó: LAUD´SCabeleireiros, BELCabeleireiros, GENICabeleireiros, JURA Cabeleireiros, DORA Cabeleireiros, tá vendo?
Muito sem gracinha a cabeleireira concordou com o erro e perguntou:
_ Mas e agora, o que é que eu faço?
O homem, orgulhoso do seu triunfo, replicou:
_ Sei lá, se vira! O que eu sei é que tava errado!
E foi-se embora todo exibido, deixando atrás de si a moça encafifada e o pintor empoleirado na escada!
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Eliane Gouveia




 03
ALEITAMENTO MATERNO

Alicinha, entusiasmada com a chegada da Cadelinha, foi fazer compras no “Pétixópis”.
Estava avaliando os artigos quando a vendedora se aproximou e:
_ A senhora está precisando de ajuda?
Alicinha “adorava” aquelas abordagens “Mêibi a Rélpi?”, mas se conteve e respondeu evasiva:
_ Obrigada, estou só olhando uma vasilha de ração para uma filhote.
_ Ah, que gracinha, de que raça ela é?
_ É uma “Fox-Latinha”.
_ E que ração ela está comendo?
_ Por enquanto eu estou dando só leite pra ela.
_ Nossa!!! Mas a senhora num pode dar leite Humano pra cachorro!
Alicinha largou a vasilha na prateleira e olhou espantada para a moça.
_Uai, mas eu numtô dando leite Humano, eu estou dando leite de Vaca!
_ Pois intão, isto que eu falei: leite que os humanos bebem!
_ Ah, bom! Sendo assim, então...
Alicinha suspirou aliviada!
Por um momento temeu que a boçal houvesse pensado que ela própria, Alicinha,estivesse amamentando a cachorrinha!
Agradeceu, saiu, e foi fazer suas compras noutra loja,onde se vendesse artigos para cães, digamos, maisCaninos!
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Eliane Gouveia

04
LEMBRANÇAS...

Querida comadre, hoje passei em frente à sua antiga casa e a vi caída ao chão.
E senti vontade de chorar.
Por alguns segundos um filme se revelou em minha memória.
Vi a entradinha lateral, o portãozinho de madeira por onde eu sempre passava, o corredor comprido que ia até a porta da cozinha.
A casinha de despejo, trançada de teias de aranha, com as estantes cheias de livros antigos, a Coleção do Tarzan, o Egípcio...
O terreno no fundo com os galos de briga atrás das telas do galinheiro.
A figura sisuda de seu pai, a timidez do Paulinho, o olhar maroto do garoto Horácio, as bochechas rosadas do pequeno Vinícius, a beleza delicada da doce Valéria, os olhinhos azuis da vovó Djanira, a “fofura” da simpática Verônica.
E a imagem dela, a Mãe Terezinha, aparando as arestas, enrolando pães de queijo para o lanche, dois de cada vez, numa habilidade imprescindível a quem desempenhava múltiplas funções de esposa, mãe, mestra, mulher e amiga amorosa.
Voltei da viagem saudosa, olhei as ruínas e pensei:
“Quem bom que eu pude partilhar destes momentos felizes!”.
E então eu chorei.
Mas não foi de tristeza, não.
Chorei foi de gratidão!
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Eliane Gouveia.

05
AMOR DE RUA


Às cinco horas da manhã ela acorda com os gritos.
Aguça o ouvido.
O som se repete.
São mais gemidos do que gritos, seguidos de uma tosse meio cortada.
Chama o filho.
_ O que será isto?
O moço se levanta, vai até a porta.
_ Não é nada não, mãe, é só um bêbado.
E torna a dormir.
A mãe já não dorme mais.
O som intermitente, doído, a tosse, tudo a impressiona.
Olha pela janela vê o vulto caído na calçada do outro lado da rua.
Ainda está escuro.
Angustiada a mulher continua espiando em vigília.
Amanhece.
E lá está o corpo frágil postado de bruços.
As mãos sob o abdômen, as pernas finas cruzadas uma sobre a outra.
A camisa suja, toda molhada do lado de baixo.
_ Urina, vômito?!
A cena a aflige.
_ Coitadinho!
Ela vai à cozinha, côa o café, volta à janela.
_ Será que tem mãe?
Olha de novo.
_ Coitadinho!
Será que está morto?
_ Coitadinho!
_ Podia ser meu filho!
_ Coitadinho!
Se tivesse coragem ela iria até lá e o traria para dentro de casa.
A todo o momento as palavras do Mestre ecoando em seus ouvidos:
“Amai o próximo como a ti mesmo”.
Ela ama, mas sente-se impotente, fraca, covarde.
Alguém diz:
_ Tem que chamar a Polícia para retirar o bêbado de lá.
Ela sente certo alívio.
Boa idéia!
A Polícia também é o próximo amoroso e está mais acostumada a ver estas coisas.
“Estas coisas”: a Vida caída ao chão, junto com os sonhos, a saúde, a dignidade, a esperança de um futuro, de um Amor.
A mulher conheceu um homem que abrigou um bêbado em seu alpendre por muitos anos.
Segundo a história, o bêbado era um sujeito bom e trabalhador, mas quando “invernava” na pinga virava um “chato de galocha”.
O dito homem o acolhia em sua porta todas as noites de bebedeira, dava-lhe de comer, aplicava-lhe remédios, dava-lhe uma coberta para proteger-se da madrugada fria.
Este homem amava o próximo sem covardia.
Ela não!
Ela até ama o próximo.
Mas apesar de querer muito, não consegue pôr em prática este Amor.
Ainda que não fosse um “Amor de dentro de casa”, que pudesse ser pelo menos um “Amor de alpendre”.
Não é.
Seu Amor é Amor de sarjeta, Amor de rua!
Coitadinha!!!

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Eliane Gouveia

06
NUANCES

A mulher foi à papelaria procurar uma caixa de lápis de cor de qualidade melhor do que “aquela” que todo mundo tem e que é meio ruim.
Encontrou uma prateleira lotada com “a de sempre” e perguntou se a loja não vendia outra marca.
A vendedora disse que sim, conduziu-a a uma outra gôndola e mostrou uma caixa de lápis de cor, importada.
Os lápis eram um pouco mais grossos e um pouco mais caros do que os da marca nacional.
A mulher então quis saber o que os lápis importados tinham de diferente dos nacionais.
A vendedora, munida de toda ênfase, explicou:
- A diferença é que estes são mais grossos, de outra marca e mais caros!"
Estupefata e perplexa, a mulher comentou:
- Ah, tá... Entendi! Sendo assim então...”
E saiu da loja para procurar em outro endereço uma caixa de lápis de cor com “diferenças” mais específicas.

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Eliane Franco Guimarães Gouveia​


07
ELIXIR DA MELHOR IDADE

(“Está naquela idade inquieta e duvidosa, que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa, um pouco de menina e um pouco de mulher...” -Machado de Assis – do poema Menina Moça.)
                           
A mulher entrou naquela idade duvidosa “desfalecido-botão-despetalada-rosa”, e, ao começar a sentir os mal-estaresinerentes à nova faixa etária, foi pedir ajuda à amiga Farmacêutica.
_ Quero que você me prepare um Elixir da Juventude, da Saúde, e da Felicidade.
Lápis e papel na mão, a doutorase preparou para anotar o corolário.
_ Conte-me tudo o que você está sentindo.
_ Uai, eu estou sentindo diversas coisas.
Eu durmo, mas meu sono não é reparador;
Quando alguém liga um sonzão estridente, sinto vontade de pegar um porrete e dar na cabeça do cidadão;
Minha paciência com gente besta, está “a zero”;
Antes eu não me intimidava com desafios.
Hoje tenho medo de tudo.
Às vezes sinto receio até de atravessar a rua;
E, finalmente, ando num desânimo enorme para o trabalho!
Eu que “desmontava” uma casa grande todinha em faxina,hoje em dia, só de pensar em arrumar minha cama já me dá uma canseira danada!
E então, querida, existe remédio para mim?
A amiga releu as anotações, pensou um pouco, olhou para ela com aqueles seus olhinhos maliciosos e respondeu:
_ Bom, vamos por partes:as noite mal dormidas, a irritabilidade, a falta de paciência, sintomas clássicos desta fase da Vida, são facilmente extinguíveis com Florais de Bach.
Os receios, medos e inseguranças são tratáveis com injeções de Fé.
Agora, já o desânimo para o trabalho num tem nenhum remédio em toda Medicina!
_ Uai, num tem remédio, por que?
_ Porque é preguiça mêsss!!!

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Eliane Gouveia


                                     

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Crônicas de Whisner Fraga

 



(três textos)


 01  -    Sobre peixes e homens
Whisner Fraga

Carlinhos ajeita o braço de Pedro nos ombros da mãe. Mãe é colo. O menino se aquieta e avança em seu sono cômodo e legítimo. O barulho, a música, o céu encrespado não o incomodam. Uma toalha cobre as costas nuas da criança e sua cabeça repousa na segurança da mãe. Mãe é colo. Pedro nem de longe lembra o menino arteiro e festivo de minutos antes. Cansou de levar o peso das coisas. Uma criança de dois anos não deveria ter fardo nenhum para transportar. Mas tem. É preciso entender e respeitar a carga de cada um.
A água está hostil. As ondas encrespadas surram o casco da embarcação. Nos equilibramos naquele marulhar sonolento, à espera dos peixes. Carlinhos desiste da pescaria e resolve se sentar ali perto de nós, ajudando na troca de anzóis. Estamos todos, até onde possível, em silêncio. Bebericamos uma cerveja enquanto os lambaris se escondem na bacia. Em breve serão iscas. Meu irmão, mais experiente, já está no terceiro tucunaré. Não temos inveja, pois a bebida está gelada e o dia está bonito.
É o último dia do ano, embora não saibamos ao certo o que isso significa. Não há ninguém saudoso, aparentemente. O vento se esfrega em nossa cara. De repente, algum animal espreita entre os arbustos. É raro algo silvestre se esgueirar pelos barrancos. Há muitos resorts transgredindo todas as leis de conservação ambiental. O bom é estar bem perto do rio e algumas toneladas de concreto não fazem diferença em nada. Multas não tiram a vontade de viver. É o que devem pensar.
A chuva nos rodeia e um chuvisco nos pega de surpresa, nos refrescando. Há cerveja para todos e ela está gelada. Pedro vai para o colchão arrematar o sono. Miltinho cochila na proa. Dali a pouco, se as traíras não aparecerem, iremos para outro ponto. Ainda não se consegue interpretar precisamente o comportamento dos peixes, de forma que é preciso esquadrinhar o rio. As linhas se entrelaçam, mas não importa. Recolhemos os anzóis e trabalhamos os nós.
De vez em quando uma canoa atravessa. Um barco. O movimento não é grande. Esperávamos mais gente no último dia do ano. Não que desejássemos um rio cheio de naus. Sei que em breve haveria um réveillon, mas isso não me comove. Os calendários, como bem se sabe, são todos ficção. E só me sensibilizam ficções mais elaboradas. Quantos papas se meteram nessas minúcias? Quantos legisladores? Nem a simbologia do ano novo é instrumento que valha.
Em breve seria réveillon e eu talvez dormisse um pouco mais cedo do que de costume, devido ao barulho estúpido de rojões manchando o céu. Não gosto de ruídos inúteis. Findo o passeio, convoco Ana e Helena. Minha mãe também retorna conosco. Com o correr dos anos, não nos importamos mais com essa história de ano novo. Calendários são ficção. E o tempo?


 02
Culinária

Whisner Fraga

Minha avó Virgilina emerge da cozinha, enxuga as mãos no vestido de corte bem reto e tecido estampado. Usa chinelos e se aproxima de nós. Estamos eu, meu pai, mãe e irmãos. É quase noite. Minha avó nos cumprimenta, ainda me chama de branquinho. E se senta, a cadeira debaixo de um quadro em que podemos ver Jesus e seu coração ornado com uma coroa de espinhos, no meio do peito. Eu tinha medo da pintura. Tinha medo daquele Cristo. Mas não tinha medo de vovó.
Minha avó Virgilina se senta, cruza as pernas e já coloca as duas mãos sobre o colo. De vez em quando penteia os cabelos com os dedos enrugados. De vez em quando ajeita o vestido. Seus olhos são muito vívidos, espera por notícias nossas, espera por qualquer observação que inicie o diálogo. Vovô, numa altura dessas, ainda está na copa, em frente à televisão. Esperamos ansiosos pelo convite. Sempre há o convite, mas o instante em que ele acontece nunca é o mesmo.
Então, após todas as novidades estarem gastas, esmiuçadas, ela nos chama para a mesa. Meu avô parece se esquecer do telejornal e se vira para nós. Então os pratos estão postos, é só aguardar. Até que chegam as almôndegas. O cheiro, podemos senti-lo já provocando nossa fome. Acho que havia também o arroz, o feijão, uma salada. Colocavam-me em meu prato duas, talvez três “armoncas”, que era como minha avó as chamava. “Armoncas”. Disso não me esqueço. Nem do sabor daqueles bolos de carne.
Minha avó Virgilina depois recolhe as louças. Volta da cozinha com algum doce. De mamão, de cidra, de figo, de leite? São surpresas. Então ela passa a mão um pouco fria em meu rosto, em meus cabelos. Gostou, branquinho?, ela quer saber. Eu encolho a cabeça, me refugio na timidez. De repente estou perto do meu avô Jerônimo e ele recolhe meu braço e me dá uns tapinhas, os dedos nodosos e entrevados.
Vovô Jerônimo pica o fumo, o canivete de lâmina carcomida. Enrola a palha, num trabalho meticuloso. Reclama do presidente, reclama dos preços, reclama da corrupção. Ouço atento. Saca o jornal, que está ao lado da televisão e aponta as manchetes. A vida não é fácil: inflação, desemprego, violência. Acende o cigarro, contrariado. Logo espia a gente, o semblante se desanuvia. Faz uma brincadeira qualquer e, logo depois, minha avó nos convoca para o sofá. Subitamente, é hora de irmos embora e não reclamamos. Também sentimos que é hora de ir. E não reclamamos.
Ah, e não reclamamos.


 03
Prefiro o medo

Whisner Fraga

Tenho medo.
Podem ter grampeado meu celular e a ligação de Ana perguntando se quero vinho no jantar corre o risco de cair em domínio público. As caveiras que Helena me manda pelo whatsapp podem significar qualquer coisa de maldita, de simbólico, se fora do contexto.
Portanto, tenho medo. E respeitem meu medo.
Olho para os lados ao atender o telefone e procuro ser bem claro quando digo algo. Repito, explico, esmiúço. Depois me lembro que aquele que interceptou legalmente minhas chamadas pode fazer o que quiser com as frases. Cortá-las, editá-las, processá-las. Teoricamente não adianta nada todo esse cuidado. Só que o medo nos deixa um pouco incoerentes. Experimentem.
Em uma mesa de bar quase me silencio. Embora vez ou outra me renda às trivialidades, tenho preferido a mudez. Pode ser que algum desses colegas seja um infiltrado. Há muitos hoje em dia. E um infiltrado, bem sabemos, sempre carrega um gravador, desde 1964.
Tenho medo quando percebo a divisão de tudo em apenas dois opostos. Não existe mais um terceiro lado e isso é preocupante, se evocarmos as antigas aulas de geometria. Certo versus errado. Desfavorecidos versus classe média. Intervenção militar versus não vai ter golpe. Cruzeiro versus Atlético.
Torcemos para estar do lado certo e o lado certo é aquele que sairá vencedor.
Tenho medo.
Os dentes das ruas estão armados até às cáries de fuzis, metralhadoras, cassetetes, algemas e pistolas. A boca desdentada da rua que baba um colostro de violência. Bispos vociferam, pregando a selvageria. Bancadas evangélicas espumam contra o aborto, mas defendem a morte aos inimigos. É por isso que as ruas estão banguelas: dente por dente.
Tenho medo das milícias que patrulham opiniões divergentes. As redes sociais estão cheias de infiltrados capturando telas. O certo é estar ao lado daquele que vencerá. Enquanto isso, resta-nos o temor.
Tenho medo que um dia me prendam porque estive do lado errado e declarei meu amor à verdade. Essa verdade que, coada, pode se tornar mentira. Que retalhada, exposta, descontextualizada, pode se tornar vergonha, condenada de antemão.
Tenho medo porque não tenho amigos. Nunca tive amigos e agora os tenho menos ainda. Em tempos de crise, a manada se dispersa em velocidade constrangedora. Por isso prefiro não ter amigos: para não me decepcionar caso tenha escolhido o lado errado. E não tenho amigos, porque a experiência me diz que eles são delatores. Incriminam nosso amor à verdade, simplesmente porque ela não tem o rosto ou o tom ou o lucro da verdade que defendem.

Tenho medo. Mas às vezes prefiro o medo à covardia.

Crônicas de Dr. Juarez Moraes de Avelar

   





Doando Sangue e Amor
                                                                  Juarez M. Avelar
Em 1970 eu morava na 38a Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro, cursando o 1o ano do Curso de pós-graduação em Cirurgia Plástica, ministrado pelo professor Ivo Pitanguy. Para suprir minhas necessidades econômicas, dava plantão semanalmente em um Sanatório de psiquiatria das 7h00 de domingo às 7h00 de segunda-feira, para não prejudicar minhas atividades no Curso. Atendia e prestava assistência aos mais de 120 doentes mentais que ali viviam em regime de internação. Ao término dos plantões, às 7h00 da manhã de segunda-feira eu saía do Sanatório e voltava à Santa Casa para participar das cirurgias que ocorriam na 38a Enfermaria.
Numa segunda-feira do mês de junho, permeada por uma agradável atmosfera de inverno tropical, eu cheguei à Santa Casa e fui caminhando apressadamente pelos imponentes corredores daquela secular instituição para chegar à 38ª Enfermaria. Eu estava atento ao programa cirúrgico daquela manhã para participar como auxiliar das cirurgias estabelecidas na reunião da 6ª feira anterior, organizada pelo Prof. Ramil Sinder e coordenada pelo Prof. Pitanguy.
 A Santa Casa é um histórico prédio que exibe uma estrutura deveras peculiar, cujas características denotam em sua totalidade uma construção erguida no Século 19 e já desgastada pelo tempo. O piso da porta de entrada estava carcomido pela constante passagem das pessoas, as compactas paredes com um metro de espessura e todas revestidas com azulejos portugueses brancos e azuis, o pé-direito com mais de oito metros de altura e enormes portas de madeira entalhadas com desenhos esculturais em alto-relevo impregnam toda a área construída com a solenidade típica dos mosteiros claustrais.
Para chegar à Enfermaria que se situa no 2o andar do último prédio do complexo arquitetônico, era inevitável percorrer os longos corredores e passar pelas dependências do Laboratório localizado no andar térreo, antes de subir as escadas ou adentrar no velho elevador que ostentava uma solene e impessoal porta pantográfica.

Naquela manhã ao caminhar pelo último corredor e aproximando-me do bloco onde fica a 38a Enfermaria, notei uma longa fila das pessoas que aguardavam atendimento no Laboratório de Análises e Banco de Sangue. Dentre as numerosas pessoas naquela fila sobressaia um senhor negro, alto, magro, vestindo roupas claras e limpas, contudo puídas, certamente pelo tempo de uso, que me olhava com insistência.
Seus olhos acompanhavam meus passos, com inusitada curiosidade e, à medida que dele me aproximava, seu olhar era ainda mais incisivo, como se quisesse dizer-me algo ou necessitasse de alguma informação importante.
Há aproximadamente dois metros de distância daquele cidadão, percebi que era inevitável dirigir-lhe uma palavra em atenção ao seu insistente e vigilante olhar para mim. Assim, amistosamente disse-lhe um bom-dia, ao que ele respondeu:
-Bom-dia, doutor.
Ele demonstrava sinais efusivos de alegria diante de meu gesto, e com expressão de contentamento que iluminou seu rosto emagrecido nem tato pela idade, mas como sinais de precoce envelhecimento, deixando-me ainda mais intrigado. Senti necessidade de dizer-lhe algo mais que um cordial bom-dia. E assim disse-lhe:
-  O senhor veio fazer exames?
Indaguei simplesmente com o propósito de dar-lhe a oportunidade de um eventual diálogo.
-    Não, doutor, não vou fazer exames - respondeu.
Sua face continuava transmitindo curiosa alegria decorrente do curto diálogo estabelecido entre nós, e continuou:
- “Estou aqui, doutor, para doar sangue. Há três anos minha filha morreu, nessa mesma Santa Casa, vítima de leucemia. Graças aos médicos daqui e das inúmeras transfusões de sangue, minha filha viveu mais um ano depois daquele triste e fatal diagnóstico que confirmou sua doença. Por causa das transfusões, pude conviver com minha filha por mais algum tempo. Depois de sua morte, voltei aqui para saber como poderia retribuir um pouco do muito que a Santa Casa e os médicos fizeram por minha filha. Sou um homem pobre, trabalho como lavrador na zona rural de uma pequenina cidade no sul de Minas, não tenho dinheiro, mas fui informado que posso doar sangue uma ou duas vezes por ano. Assim venho aqui de vez em quando porque quero retribuir com meu sangue a alegria que os médicos me proporcionaram prolongando a vida de minha filha, mesmo que tenha sido por poucos meses. E hoje é um dia desses, doutor. Estou aqui para doar sangue. Penso assim poder ajudar outras pessoas, como o sangue de outras pessoas ajudou a prorrogar a vida de minha filha ”.
Nunca mais vi aquele senhor, mas esse episódio ficou indelevelmente gravado em minha memória pela sincera expressão de gratidão, amor e esperança emanados de suas palavras e que traduziram em plenitude valores sublimes, como a solidariedade e a fraternidade, ambas cada dia mais escassas, mas felizmente, não extintas.
Enquanto houver almas caridosas, a esperança de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, sobreviverá aos escombros do egoísmo. Embalado pela emoção que vivenciei e aqui descrevo, elaborei um pensamento poético que reflete a essência daquele episódio que vivi no início de minha vida profissional.
Esperança
Bom seria se não faltasse coragem e não existissem temores!
Bom seria se não faltasse alegria e não existissem dores!
Bom seria se não faltasse sorriso e não existissem rancores!
Bom seria se não existissem espinhos e não faltassem flores!
Bom seria se não existissem trevas e não faltassem cores!
Bom seria se não existisse ódio e não faltassem amores!



 
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