sexta-feira, 13 de julho de 2012

Mitos tijucanos


  *Whisner Fraga - ALAMI                         

          As prostitutas ou meretrizes ou hetairas ou cortesãs ou rameiras ou quengas ou, mais modernamente, garotas de programa, sempre colonizaram o imaginário dos homens, em todas as épocas e em todos os lugares. O sexo, principalmente nas cidades mineiras interioranas, é um tabu, o que serve apenas para avivar nossa curiosidade com relação ao assunto. Tratado assim, desde criança, aprendemos a relacionar sexualidade com proibição, o que pode ser bem ruim.
          Isso tudo para chegar a um boato: a existência de um prostíbulo em Ituiutaba. Antes de seguir, gostaria de deixar claro que entendo toda a questão da exploração sexual, do feminismo e as demais nuances relacionadas ao uso do corpo como forma de negócio. A questão é que estou escrevendo uma crônica e tento simplesmente relatar fatos, adicionando a eles uma interpretação rasteira de minha visão de mundo e uma mentira ou outra. Esclarecido isto, defendo que a voz do povo é a voz de Deus. Se comentam por aí que há um lupanar engastado em alguma casa afastada da minha cidade natal, é porque deve ser verdade. E fofocam muito sobre isso.
          Fato é que desde minha adolescência sempre tive medo dessas mulheres que extraem lucro do próprio corpo. Fui educado para ser um cavalheiro e, de acordo com minhas leituras e dogmas, isso engloba o prazer feminino também. Como satisfazer uma dama de bordel era questão sem resposta, que cotidianamente eu me impunha. De modo que corria a notícia da existência de uma casa gerenciada por um tal de Jorginho, um negociante homossexual, cujo nome e ações saracoteavam de boca em boca.
          Não verifiquei por mim a existência de tal empresa, primeiro porque a idade me proibia, segundo porque havia a questão do temor. Mas, sendo ou não verdade, o certo é que ouvi tanta maledicência sobre randevus tijucanos, que, de certa forma, isso me ajudou na construção de minha base moral, baseada na aceitação e na crítica a uma cultura que fazia parte do meu tempo. Foram coronéis, casados, pais, que sustentavam putas, foram xerifes que exigiam exclusividade, foram menores presos com a boca na botija, foram moças lindas, encantadoras, desgarradas da família que adotaram a libidinosidade como meio de vida. Mitos inculcados em minhas confusões.
            De maneira que esta semana, lendo um jornal do início do mês, fiquei sabendo da morte trágica deste mesmo Jorginho, alvo dos boatos citados no terceiro parágrafo. Para mim, todo falecimento é um acaso muito triste e me senti chateado com a notícia do assassinato. Lembro-me, e novamente ressalto aqui que não sei se o evento aconteceu de fato ou se faz parte da mitologia, de certa vez que Jorginho saiu com uma fantasia espalhafatosa pelas ruas ituiutabanas, durante um carnaval. Fantasia caríssima, que fazia frente àquelas usadas pelas musas do carnaval carioca. Eu não vi, portanto não posso dizer se foi acontecimento verídico. Tantos e tantos rumores sobre ele que minha cabeça se perde agora.
            O homossexualismo ainda não foi bem assimilado em nossa sociedade, de forma que um preconceito camuflado, silencioso, ainda impera na comunidade. Jorginho certamente foi vítima do “mito da igualdade sexual”, que afirma haver uma compreensão geral que todos somos iguais. Como nos lembrou Huxley, o problema é que “alguns são mais iguais do que outros”.
            De todo modo, esta crônica é somente uma homenagem a essa figura que fez parte da história de Ituiutaba, não só pela sua atuação política, que sobre ela nada sei, mas talvez principalmente por não ter se contentado em ser um observador da vida, mas alguém que, bem ou mal, certo ou errado, preencheu, com sua coragem, páginas das lendas de minha cidade, que sem sua presença seriam muito mais tediosas.


* Whisner Fraga é escritor. 
Contato: wf@whisnerfraga.com.br

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